Ah, meu primeiro dia de aula! Fiquei ansiosa, esperei pra saber como seria. Todos me diziam que o meu estudo aqui não valia, fiz até uma prova pra entrar na 6ª série, acharam que não tinha capacidade, que era ignorante por ter morado no Paraguai, num país tão pobre.
- Comece cedo, as regras são diferente e o ensino, nem se fale!
Acordei, antes que o necessário, tomei banho, meu café foi tranquilo, e segui caminhando até a escola. Cheguei e tive um susto, mal podia acreditar no que via, que horror, a escola tinha muros!
Quando adentrei, outro susto, as paredes por dentro e por fora estavam pixadas, as salas abarrotadas de alunos, o professor mal conseguiu balbuciar algumas palavras. Tentei ouvi-lo, mas não pude, o barulho vindo de todos os cantos não me permitia, tentei concentração e de repente um tumulto; alunos saindo correndo, gritando, eufóricos com algo ali no corredor que parecia ser fabuloso, tive curiosidade, mas a coragem não me deixou ir até lá. Quando os meus ouvidos se apuraram, quis voltar pra casa, tamanha minha angustia, dois alunos brigavam, um com uma faca na mão, atingiu o rosto do companheiro, que teve que ser hospitalizado, faltando-lhe o nariz.
Que pesadelo! Naquele mesmo dia me disseram que no Brasil é mais fácil matar que ler um livro, verdade? Mas como pode? Bala é a prisão, educação é liberdade.
Passou-se o tempo, acabei por me acostumar, não que isso houvesse sido fácil. A cada dia uma nova briga, nas paredes um novo rabisco e o caderno continuava em branco. As esperanças que os professores tinham de ensinar logo se apagavam, assim como as lousas de lições que apenas eu copiava.
Faltavam professores, eles tentavam se proteger, era perigoso ensinar. Naquele ano, faltou-me geografia, ciências, inglês, e até história. Nos anos que se seguiram nada mudou, não tive física, biologia, química, inglês, história e geografia, me deram pra ler um tal de “Atualidades” que me preparava pro vestibular, mas livros de literatura e teorias, nem pude ler, a biblioteca tinha menos dois mil livros, incluso os didáticos, que já sem capa, rabiscado e faltando folhas, ocupavam as prateleiras de uma sala de menos de 3m quadrados.
Pois é, o ensino no Brasil tem sido alvo de muitas críticas, eu, desde criança, já tinha me dado conta disso, quando li a matéria publicada no jornal “O Estado de S. Paula” em 09/11/04, o Brasil tinha sido avaliado pela UNESCO como um país cujo ensino não há conteúdo. O país tinha ocupado o 72º lugar entre os 127 países participantes e o 87 º lugar na permanência dos alunos após a 4 ª série. Não tive trabalho em refletir o porquê, a ausência de professores, a ausência do interesse dos alunos, a falta de articulação entre escola e família e as condições precárias de trabalho, com certeza, eram os motivos.
O professor da rede pública, em geral, precisa dar de 50 a 60 aulas semanais para garantir proventos minimamente condignos, numa sala abarrotada de alunos que concluem o Ensino Médio inseguros, despreparados, sem a mínima condição de cursar o Ensino Superior.
No Brasil o ensino é conservador, maltratado, bancário e está “a serviço da lógica dominante” como disse uma vez o mestre Paulo Freire.
Já criaram programas como o Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (FUNDEF) e o Bolsa Escola para ajudar na inclusão, mas infelizmente não mexem com a qualidade. A questão fundamental é saber até quando a Educação será refém das vontades de determinados governantes. Os professores precisam de autonomia e até isso lhes foi tirado.
Por isso, a população não deve calar-se e nem se conformar enquanto o capitalismo, com as duas mãos, esmaga a educação e, com a garganta, grita palavras de ordem contra o progresso.
É preciso incentivo aos professores e estudantes, para que ambos possam desenvolver suas habilidades intelectuais, e para isso é preciso um salário mais digno e melhores condições de trabalho com jornadas menores, para que possam se desenvolver e se atualizar, e aos alunos uma estrutura física melhor, materiais didáticos de qualidade, para que possam sair seguros e preparados para serem profissionais competentes, pois a educação sozinha não transforma a sociedade, e sem ela tam pouco a sociedade mudará.
E eu? Bom, um dia me disseram que os ventos às vezes erram a direção, então resolvi tentar e sou a única estudante daquela escola pública que conseguiu entrar numa Universidade.
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